
Resumo do artigo
- Origem e Música: O Pé de Serra vem do Nordeste com o trio sanfona, zabumba e triângulo; o Universitário nasceu no Sudeste com bandas pop.
- Movimentos: Pé de Serra valoriza o abraço fechado e passos curtos; Universitário é conhecido pelos giros complexos e abraço aberto.
- Cultura: O estilo tradicional celebra a identidade nordestina; o Universitário é um fenômeno social urbano que atrai jovens.
- Conexão vs. Performance: Enquanto o Pé de Serra foca na conexão do casal, o Universitário destaca a performance e a técnica visual.
O som da sanfona ecoa, um triângulo tilinta e a zabumba marca o pulso da festa. No salão, corpos se encontram em um abraço que pode ser tanto rústico e telúrico quanto ágil e performático. Essa cena, tão característica da cultura brasileira, desdobra-se em múltiplas linguagens, principalmente quando o assunto é forró.
De um lado, o Forró Pé de Serra, guardião de uma herança nordestina, com suas raízes fincadas na poeira do sertão e na simplicidade do gesto. Do outro, o Forró Universitário, uma releitura urbana que nasceu nas capitais do Sudeste, incorporando giros complexos e uma nova dinâmica social.
Embora compartilhem a mesma matriz rítmica, esses dois estilos representam mais do que apenas passos diferentes; eles narram histórias distintas sobre identidade, migração e a constante transformação da cultura popular no Brasil.
Compreender suas diferenças é decifrar um capítulo fascinante da dança de salão nacional, um diálogo contínuo entre a memória afetiva de um povo e o desejo de inovação das novas gerações que mantêm a chama do forró mais acesa do que nunca.
As Raízes e a Essência de Cada Estilo
Para entender a dança, é preciso primeiro ouvir a música e sentir o chão de onde ela brota. O Forró Pé de Serra e o Universitário são como dois galhos robustos que crescem da mesma árvore, mas que se estendem em direções diferentes, buscando luz e espaço de maneiras únicas.
A distinção fundamental entre eles não está apenas na execução dos movimentos, mas na própria concepção do que é dançar a dois, na relação com a música e no ambiente social que cada um fomenta.
O que define o Forró Pé de Serra?
O Forró Pé de Serra é a alma sonora e corporal do Nordeste brasileiro. Seu nome evoca imagens de festas em chão de terra batida, ao pé de uma serra, sob a luz do luar. Musicalmente, ele é sustentado pelo trio instrumental clássico: sanfona, zabumba e triângulo. Essa formação, popularizada por mestres como Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, cria uma base rítmica inconfundível que convida a uma dança mais conectada e íntima.
Na dança, o Pé de Serra preza pela simplicidade e pela condução. O abraço é mais fechado, o contato corporal é constante e os passos são curtos, quase um arrastar dos pés que acompanha a marcação da zabumba. Não há espaço para giros mirabolantes ou coreografias complexas.
A beleza está na sutileza, na comunicação não verbal entre o casal, na capacidade de sentir a música e traduzi-la em um movimento conjunto, orgânico. É uma dança de sentimento, de conexão profunda, onde o objetivo não é a performance para quem assiste, mas a partilha de uma experiência a dois.
O surgimento e as características do Forró Universitário
O Forró Universitário, por sua vez, é um fenômeno mais recente, que ganhou força a partir dos anos 1990, principalmente em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Impulsionado por bandas como Falamansa e Rastapé, que trouxeram uma roupagem pop ao forró tradicional, o estilo rapidamente conquistou os jovens universitários. Esse novo público, vindo de um contexto urbano e com referências de outras danças de salão, como a salsa e o zouk, começou a adaptar os passos do forró.
A dança universitária se caracteriza pela abertura. O abraço é mais flexível, permitindo uma infinidade de giros, trocas de lado e movimentos acrobáticos. A condução se torna mais visual e baseada em sinais com as mãos, e a performance ganha destaque.
É um estilo mais extrovertido e dinâmico, que dialoga com a energia das festas e dos grandes shows. Como aponta o pesquisador de danças brasileiras Marco Antonio Perna, ‘o Forró Universitário reflete a necessidade de expressão individual dentro do par, uma característica das danças urbanas contemporâneas’ (em entrevista para o portal O Grito!, 2018). Essa busca por uma assinatura pessoal no movimento é uma de suas marcas registradoras.
Análise Comparativa dos Movimentos e da Condução
A diferença mais visível para quem observa um salão de forró está na movimentação dos casais. Enquanto um par de Pé de Serra parece flutuar junto, como uma unidade coesa, um par de Universitário desenha figuras complexas no espaço, com giros e aberturas constantes. Essa distinção visual é o resultado de filosofias de condução e conexão completamente distintas.
A conexão no Pé de Serra: o abraço como guia
No Pé de Serra, o abraço é o centro de tudo. É através do contato do peito, do posicionamento das mãos e da leve pressão do corpo que o condutor (geralmente o homem) comunica suas intenções. A conduzida, por sua vez, aprende a “ler” esses sinais sutis, respondendo de forma intuitiva.
Não há necessidade de força, mas de sensibilidade. Os passos básicos, como o “dois pra lá, dois pra cá”, são executados com os pés muito próximos ao chão, mantendo o ritmo e a estabilidade. A energia é circular e contida dentro do par, criando uma bolha de intimidade que isola o casal do resto do salão. É uma dança que se sente mais do que se vê.
A dinâmica no Universitário: giros e performance
O Forró Universitário quebra essa bolha. O abraço se abre e se fecha a todo momento para dar passagem a uma vasta gama de movimentos. A condução passa a ser mais explícita, utilizando a tensão e o impulso dos braços para iniciar giros como o “giro simples”, o “giro do cavalheiro” ou sequências mais elaboradas que lembram outras modalidades de dança.
A performance se torna um elemento central; os dançarinos não apenas dançam um para o outro, mas também para o público ao redor. Com base em tendências observadas em estudos recentes sobre danças sociais, nota-se que o Forró Universitário atende a uma demanda por espetacularidade e virtuosismo, alinhada à cultura visual das redes sociais e da performance cotidiana.
| Característica | Forró Pé de Serra | Forró Universitário |
|---|---|---|
| Origem | Zona rural do Nordeste brasileiro | Meio urbano do Sudeste, anos 90 |
| Música Base | Trio tradicional (sanfona, zabumba, triângulo) | Bandas com influências pop/reggae |
| Abraço | Fechado e constante | Aberto e flexível |
| Movimentos | Passos curtos, arrastados, sem giros | Giros complexos, aberturas, acrobacias |
| Condução | Sutil, baseada no contato corporal (peito) | Explícita, baseada nos braços e mãos |
| Foco Principal | Conexão e sentimento entre o par | Performance, técnica e visual |
| Expressão | Intimista e introspectiva | Extrovertida e dinâmica |
| Influências | Danças rurais e tradicionais | Salsa, Zouk, Samba de Gafieira |
O Contexto Cultural e Social de Cada Vertente
A dança nunca existe no vácuo. Ela é um reflexo direto do ambiente, da música e das pessoas que a praticam. O Forró Pé de Serra e o Universitário floresceram em contextos muito diferentes, e isso moldou não apenas seus passos, mas também sua função social.
O Pé de Serra como celebração da identidade nordestina
O Forró Pé de Serra está intrinsecamente ligado à cultura nordestina. Ele é a trilha sonora das Festas Juninas, das vaquejadas e das celebrações familiares. Dançar Pé de Serra é, de muitas formas, celebrar uma herança, uma identidade regional que resiste e se orgulha de suas tradições.
É uma dança que une gerações, onde avós, pais e netos compartilham o mesmo salão e os mesmos passos. A simplicidade dos movimentos a torna acessível a todos, independentemente da idade ou da habilidade técnica. É uma prática cultural que fortalece laços comunitários e preserva a memória de artistas como Dominguinhos e Jackson do Pandeiro.
O Universitário como fenômeno de massa urbano
O Forró Universitário, por outro lado, nasceu do encontro de culturas nas metrópoles. Ele se tornou um ponto de encontro para jovens, muitos deles estudantes que saíram de suas cidades para fazer faculdade, buscando socialização e diversão. As casas de forró se transformaram em espaços de paquera e de formação de novas tribos urbanas. O crescimento do estilo foi exponencial.
Um estudo da Associação Nacional das Empresas de Eventos (ANEVE) de 2019, antes da pandemia, apontou que as festas e shows de forró movimentavam cerca de R$ 1 bilhão por ano no Brasil, com grande parte desse montante impulsionado pelo circuito universitário. Esse sucesso comercial também trouxe um novo profissional para a cena: o professor de dança de salão, que sistematizou os passos e criou uma didática para ensinar os giros e as coreografias, algo menos comum no universo do Pé de Serra, onde o aprendizado costuma ser mais informal e familiar.
Artistas como Alceu Valença e Elba Ramalho, embora de uma geração anterior, também viram suas músicas serem abraçadas por esse novo público, transitando entre os dois universos.
Conclusão: Um Diálogo de Gerações na Pista de Dança
Analisar o Forró Pé de Serra e o Forró Universitário não é colocar um contra o outro, mas sim observar a extraordinária capacidade da cultura brasileira de se reinventar sem perder sua essência. O Pé de Serra é o alicerce, a memória afetiva que nos conecta com as raízes do Brasil profundo. É a dança do abraço sincero, da escuta e da entrega, um testemunho da força da tradição oral e corporal.
O Universitário é a expansão, a prova de que essa tradição pode dialogar com o mundo contemporâneo, absorvendo novas influências e se adaptando a novos corpos e espaços. É a dança da performance, da energia jovem e da celebração coletiva nas grandes cidades. No fim, ambos são forró. Ambos celebram o encontro, a alegria e a música que faz o coração pulsar no ritmo da zabumba.
Seja no passo arrastado do sertão ou no giro veloz da capital, o que permanece é o convite para deixar o corpo falar e se conectar com o outro. E essa, talvez, seja a maior lição que o forró, em todas as suas formas, tem a nos ensinar.
Perguntas Frequentes Sobre Forró Universitário vs. Forró Pé de Serra
Uma pessoa que dança Forró Pé de Serra consegue dançar o Universitário?
Sim, com alguma adaptação. A base rítmica é a mesma, o que é uma grande vantagem. No entanto, será preciso aprender a lógica dos giros e a condução com os braços, que é muito diferente da condução pelo tronco, típica do Pé de Serra. A maior dificuldade pode ser 'soltar' o abraço e se acostumar com uma dança mais aberta e performática.
Qual estilo é mais fácil para iniciantes?
O Forró Pé de Serra é geralmente considerado mais fácil para começar, pois seus passos básicos são simples e focados na conexão e no ritmo. Ele permite que o iniciante se sinta confortável dançando rapidamente. O Universitário pode ser mais desafiador no início devido à quantidade de giros e à necessidade de coordenar movimentos mais complexos.
É verdade que o Forró Universitário 'estragou' o forró tradicional?
Essa é uma visão purista que não encontra respaldo na dinâmica cultural. O pesquisador de cultura popular, Cacá de Souza, afirma que 'nenhuma manifestação cultural é estática; a renovação é o que a mantém viva' (livro 'Danças do Povo', 2015). O Universitário não substituiu o Pé de Serra; ele criou um novo caminho, atraindo um público que talvez nunca se interessasse pelo forró, e muitos acabam buscando as raízes depois.
Existem outros estilos de forró além desses dois?
Sim. O universo do forró é vasto e inclui outros estilos como o Forró Eletrônico, popularizado por bandas como Aviões do Forró e Calcinha Preta, que tem uma dança mais coreografada e influenciada pelo axé. Há também o Roots, um estilo mais recente que busca um meio-termo, valorizando a musicalidade do Pé de Serra com a adição de alguns movimentos e giros mais elaborados, mas sem a velocidade do Universitário.
Onde posso aprender a dançar forró?
Hoje em dia, há escolas de dança de salão em praticamente todas as cidades de médio e grande porte no Brasil que oferecem aulas de forró, geralmente com foco no estilo Universitário. Para aprender o Pé de Serra, o ideal é frequentar os bailes e festivais dedicados ao forró tradicional, como os de Itaúnas (ES) ou os que acontecem em São Paulo, onde se aprende muito pela observação e pela prática no salão.
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